Manipulação na Mídia
Manipulação na Mídia
De Fabricio Ungaretti Coutinho
Me chamou a atenção algumas inversões de olhar da mídia sobre os fatos mais “espetaculares” dos últimos dias. È o que Arbex chama de Showrnalismo.
Três fatos: assassino solto é morto, modelo transa na praia e surge um dossiê que incrimina um candidato a presidência.
Três olhares da mídia: ex-namorada “supostamente” mata o Cel. Ubiratan; Vídeo da Cicarelli bate recorde no youtube; Petistas são acusados de comprar o dossiê.
Como diria Jack, vamos por partes.
O Coronel Ubiratan Guimarães foi o comandante da operação que matou 111 pessoas no presídio de Carandiru. Foi condenado a 632 anos de prisão.Estava solto. Era candidato a deputado estadual pelo PTB de São Paulo. Com o número de 14111. Em raríssimos momentos isto foi colocado. O foco da notícia foi se a advogada Carla Cepollino, sua ex-namorada, teria o assassinado ou não. Claro que o fato é a morte, mas não coloca ro contexto da história de vida dos protagonista é uma forma de manipulação.
A apresentadora e modelo Daniela Cicarelli foi “pega” transando com seu namorado em uma praia da Espanha. Isto é fato, lógico. No entanto o showrnalismo, a mídia de espetáculo, transformou a coisa em assunto nacional. E ao contrário do primeiro exemplo e do próximo que virá, fez vários questionamentos para além do fato em si. Discutiu-se entre outras coisas a ética do jornalista que estava invadindo a privacidade da modelo, o crime ou não de uma pessoa transar em local público e a globalização e as novas ferramentas de internet. Por incrível que pareça foi o fato que menos teve manipulação no sentido de ouvir vários lados, mostrar outras questões que provém do fato em si,etc... No entanto, também não deixa de ser um fato de manipulação, pois embora os temas debatidos sejam de interesse na área do direito e da comunicação, o tamanho desproporcional que a discussão gerou interferiu nas pautas “jornalísticas” dos meios de comunicação. O que nos perguntarmos: isto é de real interesse da sociedade? Se for: o que leva a população a se interessar mais pela vida dos outros do que por sua própria vida (saber mais sobre a política democrática representativa que interfere diretamente em suas vidas)? E se não for de interesse: porquê a mídia pautou este assunto exaustivamente?
Mas agora chega porque isto já tomou tempo demais. Vamos ao terceiro exemplo.
Um dossiê aparece em vésperas de eleição com uma fita de vídeo e fotos que mostram o então candidato ao governo de São Paulo, José Serra (PSDB), quando era ministro da saúde do governo FHC, entregando ambulâncias em Cuiabá em parceria com a Planam, empresa de Vedoim responsável pelos desvios de verbas públicas. O empresário tenta vender o dossiê para pessoas ligadas ao PT. Valdebran Carlos Padilha da Silva e Gedebran Pereira Passos são presos em um hotel com R$1.702,920. Qual foi o ponto de vista da grande imprensa: a compra do dossiê e não o dossiê.
Claro que é lamentável este tipo de atitude, a compra do dossiê. Certamente os responsáveis, estejam ligados ao PT ou não, interferiram na campanha de reeleição de Lula. Certamente que temos que saber de onde veio o dinheiro. Assim como até hoje não sabemos de onde veio dinheiro do mensalão. Mas e o fato? E o dossiê? E as apurações de que o esquema sanguessuga começou no governo FHC? E as investigações para saber se Serra estava envolvido? Isto não foi colocado em pauta na grande mídia em NENHUM momento.
Manipulação!
Abaixo coloco alguns conceitos do maravilhoso livro “Padrões de Manipulação na grande imprensa” de Perseu Abramo.
“É uma realidade artificial, não-real, irreal, criada e desenvolvida pela imprensa e apresentada no lugar da realidade real”(pg 23)
“Os padrões devem ser tomados como padrões, isto é, como tipos ou modelos de manipulação, em torno dos quis gira, com maior ou menor grau de aproximação ou distanciamento, a maioria das matérias da produção jornalística”(pg.25)
“1. Padrão de ocultação- É o padrão que se refere à ausência e à presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não se trata, evidentemente, de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão diante do real. É ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade” (pg.25)
“2. Padrão de fragmentação- Eliminados os fatos definidos como não- jornalísticos, o “resto” da realidade é apresentado pela imprensa ao leitor não como uma realidade, com suas estruturas e interconexões, sua dinâmica e seus movimentos e processospróprios, suas causas, suas condições e suas conseqüências. O todo real é estilhaçado, despedaçado, fragmentado em milhões de minúsculos fatos particulares, na maior parte dos casos desconectados entre si” (pg 27)
“Seleção de aspectos...os critérios para essa seleção não residem necessariamente na natureza ou nas características do fato decomposto, mas sim nas decisões, na linha, no projeto do órgão de imprensa, que são transmitidos, impostos ou adotados pelos jornalistas desse órgão.”(pg.28)
“A descontextualização é uma decorrência da seleção de aspectos. Isolados como particularidades de um fato, o dado, a informação, a declaração perdem todo seu significado original e real para permanecer no limbo, sem significado aparente, ou receber outro significado, diferente e mesmo antagônico ao significado real original”(pg28)
“3.Padrão de inversão- Fragmentado o fato em aspectos particulares, todos eles descontextualizados, intervém o padrão de inversão, que opera o reordenamento das partes...3.1Inversão da relevância dos aspectos: o secundário é apresentado como principal e vice-versa;...3.2 Inversão da forma pelo conteúdo: o texto passa a ser mais importante que o fato que ele produz; a palavra, a frase, no lugar da informação; o tempo e o espaço da matéria predominando sobre a clareza da explicação; o visual harmônico sobre a veracidade ou a fidelidade; o ficcional espetaculoso sobre a realidade. 3.3 Inversão da versão pelo fato: não é o fato em si que passa a importar, mas a versão que dele tem o órgão de imprensa, seja essa versão originada no próprio órgão de imprensa, seja adotada ou aceita de alguém- da fonte das declarações e opiniões.” (pg29)
“Outro extremo da inversão do fato pela versão é o oficialismo, expressão aqui utilizada para indicar a fonte “oficial” de qualquer segmento da sociedade, e não apenas as autoridades do Estado ou do governo. No lugar dos fatos uma versão, sim ,mas de preferência a versão oficial...de maneira que o leitor não apenas acredite nela mas a aceite e adote.” (pg30)
“3.4 Inversão da opinião pela informação- ...substituir, inteira ou parcialmente, a informação pela opinião. Deve-se destacar quenão se trata de diquer que, além da informação, o órgão de imprensa apresenta também a opinião, o que seria justo, louvável e desejável, mas sim que o órgão de imprensa apresenta a opinião no lugar da informação, e com a agravante de fazer passar a opinião pela informação.”(pg 31)
“Padrão de Indução-...Alguns assuntos jamais, ou quase nunca, são tratados pela imprensa, enquanto outros aparecem quase todos os dias. Alguns segmentos sociais são vistos pela imprensa apenas sob alguns poucos ângulos, enquanto permanece na obscuridade toda a complexa riqueza de suas vidas e atividades. Alguns personagens jamais aparecem em muitos órgãos de comunicação, enquanto outros comparecem abusivamente, à saciedade, com uma irritante e enjoativa freqüência,” (pg34)


1 Comments:
Como cidadão, estou abismado com a falta de escrupulo da midia no Brasil, creio que todos os Brasileiros estão assistindo esta barbarie com a informação. Os telejornalismos estão manipulando a bel-prazer toda a informação, que deveria a principio nos informar, estão desinformando, com interesses ocultos e não informados. Sinto-me subestimado por estes veiculos e declaro vou trabalhar o maximo que puder para desestimular a compra dos produtos dos patrocinadores destes programas, pois creio ser a unica forma de combater esta falta de respeito. Creio seja esta a unica forma, por não ter o direito de replica a esta tamanha ditadura da informação.
Rogel Maio
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