Domingo, Outubro 01, 2006

Opinião Pública de quem?

De Fabricio Ungaretti Coutinho

O ser humano enquanto agente transformador do ambiente em que se inclui exerce e somente de tal maneira, uma influência neste, quando seu papel social é de protagonista de um contexto de mudança e produção do pensar individual em pró do coletivo. Não apenas com a mera reprodução do senso comum mas sim com a aquisição de informações e conseqüente transformação destas em conhecimento, tornado-se assim ser político das relações públicas em sociedade, formando e ajudando a fomentar uma opinião acerca do mundo, e suas percepções empíricas na sociedade.

Ser político porque ao tomar parte na estrutura que antes apenas o influenciava, torna-se protagonista e interage com o meio ,criando uma relação de agir em determinados assuntos, a fim de obter o que se deseja. Portanto, sendo responsável direto pelo conceito de opinião pública, não somente aceitando o que lhe foi passado e estabelecido como norma, moral ou definições de certo e errado como pensava Rosseau, mas literalmente opinando a respeito de determinado assunto de interesse público.

Mesmo que não compartilhando do que, em sua maioria ,é determinado como razão sobre tal, deixa de fazer parte da opinião pública, pois ao se apropriar do assunto, estabelece ligação direta com o fato objetivo e sua " verdade" subjetiva das coisas, sendo impossível qualquer comprovação científica de "Opinião Pública" bem como sua quantificação em pesquisas.

Em concordância com a tese do pensador Pierre Bordieu, defendo a afirmação de que "Opinião Pública" não existe. Pelo menos não como ela costuma ser descrita, a ver:

- discussão espontânea sobre um tema público, entre atores livres de influências externas designando uma opinião comum sobre este tema.

Para demonstrar a negação a esta afirmação, é preciso em primeiro lugar definir o que é opinião e o que é público.

Opinião é o consenso entre a observação do meio, comparada com a ética individual. Como a ética é a dimensão de realização do ser-próprio do homem, fica impossível de se ter duas opiniões iguais, pelo fato do homem ser uno em sua identidade, logo, jamais existindo um valor ético igual em dois seres humanos. Estabelece-se então somente uma relação de semelhança entre o "olhar " e o objeto, criando uma imagem ou como define Aristóteles, a forma das representações e que é diferente de sua natureza. Portanto mesmo que se isole a observação dos fatos e seja passado da mesma maneira para um grupo, ao comparar, e assim, produzir conhecimento, opinar e não meramente receber informação como já foi dito, a ética individual em sua natureza fará com que não se tenha uma "opinião pura" deste grupo sobre o assunto. As opiniões serão de caráter individual, jamais podendo através da quantificação destas opiniões, formar uma opinião geral.

Para continuar defendendo a idéia de que opinião pública não existe, conceituemos público.

É público, tudo aquilo que não pertence a uma pessoa ou grupo determinado É de todos, sendo feito para uso e não posse, como as idéias e as próprias relações públicas. Esta última exercendo papel fundamental na construção deste ser pensante agente transformador.

Como as relações, matéria viva e canal físico da associação seja privada ou pública, são feitas por seres individuais, novamente o conceito de público bem como de sua apropriação só será analisado e usado de acordo com as idéias individuais das pessoas que estão em um grupo e se relacionam.

Classificar Opinião Pública como um fenômeno de massa é diminuir sua abrangência psico-social, pois limita a formação da opinião a uma manifestação de determinado grupo, quando estes na verdade estão expondo seu ponto de vista das coisas, jamais podendo definir como público(que pertence à todos), esta opinião. O que existe são "opiniões cercadas" que designam idéias dirigidas de algum grupo com determinada ideologia que pretende assim, pressionar outras esferas de maior poder para obter o que desejam. Isto é a política e seus jogos de poder. Acontece que uma manifestação seja pela materialização das ideologias em movimentos sociais, comícios, passeatas, pesquisas de eleição, etc, quando analisada na relação governo(orgão máximo de poder) e determinado grupo, jamais englobara o todo(no caso do poder, o todo é a população em geral). A única forma de transformar esta " opinião cercada" em uma dita opinião pública, é através de outro orgão de poder com a capacidade de atingir esta população geral, neste caso a Mídia, que é quem verdadeiramente exerce pressão e influência no governo e na opinião pública.

O processo de tecnologização e informatização da sociedade contemporânea, fez com que se suprimisse outras formas de manifestações possiveis de serem diagnosticadas como função de pressão da opinião pública contra o poder. A Mídia é o caminho escolhido para levar essas manifestações ao alcance de todos, fazendo com que ecoe nos ouvidos do poder, ao tornar o governo mera parte da população geral.

A questão é que de acordo com Bordieu, os temas não são de real interesse de todos, ou seja, ele acredita que impomos assuntos. A Mídia enquanto canal, seria um reprodutor destes assuntos pautados de acordo com as expectativas dos grupos da sociedade, e apenas os potencializaria de forma isenta e imparcial para que houvesse a conscientização das pessoas que desconhecem o assunto, transformando- o em interesse público. Porém a Mídia não é isenta, ela atende a interesses dos grupos que a comandam, muitos destes contrários a alguns grupos da sociedade, fazendo prevalecer a opinião do grupo econômico-político que controla o meio de comunicação e passa ao povo a versão que bem quer de opinião pública, exercendo influencia em boa parte da população que acaba por engolir a versão dos fatos e aceitar esta " opinião cercada".

Como exemplo posso citar a relação do maior veículo de comunicação do Rio Grande do Sul e o maior Movimento Social do Brasil, respectivamente o Grupo RBS e MST-Movimento dos Trabalhadores sem Terra.

É nítida a opinião do grupo econômico dos Sirotski, amigos da direita e da UDR, mas deixo a questão política de lado para somente analisar as palavras escritas em um de seus jornais(Zero Hora) para demonstrar a diferença entre opinião pública que é, ou deveria, se é que ela existe, e eu creio que não, ser imparcial e verdadeira e a " opinião cercada" ,opinião do grupo hegêmonico controlador da mídia, maior espaço de poder e veículo de informação capaz de exercer influência na população geral e pressão no governo.

No estado do Rio Grande do Sul, esta relação, tomou espaço nas discussões cotidianas devido a polêmica da desapropriação de terras de Alfredo Southalli, na região de São Gabriel. Para entender melhor o caso: no dia 20 de Maio o Presidente Lula assina decreto desapropriando, para fins de reforma agrária, uma área de 13,2 mil hectares, iniciando no dia 10 de Junho uma Marcha dos Sem-Terra que parte de Pantano Grande em direção a São Gabriel. Durante o trajeto e os dias percorridos, os ruralistas organizaram uma contra-marcha, contando com o apoio do prefeito da cidade, bloquearam um viaduto e distribuíram folhetos instigando a população a matar os sem-terra. Demonstrando seu repúdio aos "baderneiros descumpridores da lei".

No dia14/08/03 , os ministros do supremo Tribunal Federal (STF), anularam a desapropriação dos 13,2 mil hectares de terras improdutivas pertencentes ao ruralista Alfredo Southall. A relatora do processo, a Ministra Ellen Gracie, aceitou o argumento de que a vistoria do Incra na propriedade não havia sido previamente notificada. O prefeito de são Gabriel, Rossano Dotto Gonçalves, assim declarou: - Espero que ponham um fim nessa "história de fazer reforma agrária" em São Gabriel.

Para deixar no ar a dúvida da suposta tendenciosidade do Jornal apenas gostaria de comentar um trecho do editorial do dia 15/08/03 , que já começa pelo nome deixando bem claro sua posição quanto a decisão da justiça: "Pelo Respeito à Lei - ...os agentes do poder público cometeram inadmissível irregularidade, ao não observarem pré-condições que encontram guarida na lei." Sendo que em um trecho anterior do mesmo editorial estava escrito " Os proprietários dos imóveis rurais foram regularmente notificados de que em data determinada, se efetivaria uma vistoria das terras. Esta foi impedida por interveniência dos ruralistas da região." Esta atitude, porém, em nenhum momento foi colocada como inadmissível irregularidade.

Como nos feudos de terras, aonde o proprietário impõe sua " verdade" aos trabalhadores, o Jornal zero Hora, acaba por tornar-se um verdadeiro feudo dentro da comunicação fazendo o jogo da relação de clientelismo, ligada a vínculos e favores.

De acordo com o Prof.Millman, no artigo a Metodologia do Jornalismo: Breve excurso sobre a natureza de um conflito, : "A incapacidade dos jornalistas de superarem a doutrina de compromisso, defendida pelos empresários de comunicação com relação ao establishment político e econômico, que se manifestam na editorialização das pautas, contribui para cretinizar o jornalismo, segundo expressão de Jânio de Freitas, e aliená-lo de seus compromissos autênticos."

A notícia acaba seguindo condições estruturais de uma atividade empresarial explorada tradicionalmente por oligarquias regionais.

A opinião dita pública é a " opinião cercada " dos grupos ecônomicos detentores do poder midíatico, capaz de exercer influência no poder maior, porém não tão popularmente abrangente, que é o governo. Influência que acaba também exercendo sobre a população que ao ver uma opinião colocada como verdade absoluta e como uma opinião da maioria, acaba por aceitar esta visão mascarada sobre determinado . Ou então, quando esta não é igual a estabelecida pela sua ética, julga encontrar-se a parte da opinião pública, quando na verdade, ele a integra sim, mas, não necessariamente sendo igual a dita opinião pública, pois esta não existe, é apenas a opinião cercada de um grupo mais poderoso.

BIBLIOGRAFIA:

Opinião Pública e Pesquisas Eleitorais- Marcello Baquero

Contribuições para o conceito de Opinião Pública- Rubens Figueiredo e Silvia Cervellini

A espiral do silencio. Opinião Pública: Nosso papel social- Elizabeth Noelleneuman

Metodologia do Jornalismo: Breve excurso sobre a natureza de um conflito- Millman

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