Segunda-feira, Outubro 02, 2006

razões do voto

Razões do voto

De Fabrício Ungaretti Coutinho

Resenha do texto “Em busca das razões para o voto: o uso que o eleitor faz da propaganda política” de Luciana Fernandes Veiga.

O texto foi baseado em pesquisas qualitativas na ocasião da disputa presidencial de 1998, porém seus dados ainda são muito atuais e podemos ver elementos que devem ter se repetido nas eleições de 2006.

A primeira hipótese (de Downs 1957) é de que “o eleitor ao decidir seu voto, age a partir de cálculos de interesse e utilidade pessoal, a fim de maximizar ganhos”(pg.184)

A política quando não inserida no cotidiano não influencia diretamente o eleitor. Este precisa ter um contato mais direto com ações políticas em sua comunidade para ter uma maior clareza do sentido político. Isto não ocorre devido o fato de o dia-a-dia das pessoas ser muito corrido. O eleitor “comum” acorda cedo, vai pro trabalho, fica lá dia inteiro, chega tarde em casa e quer descansar e estar com sua família. Isto quando não são os casos de pessoas que passam dificuldades como os moradores de rua. Estes precisam de um prato de comida não vão ficar escutando as divagações ideológicas dos pequeno-burgueses pseudo-revolucionários. Os questionamentos do atual sistema capitalista sempre partem de uma minoria que tem acesso ao conhecimento, ou seja, a vanguarda. Como também eu já escrevi antes o PT surgiu como um partido de massas, por isto chegou onde chegou, pois atingiu diretamente a população. Os atuais partidos de esquerda (sim pois o PT não o é mais) são o quadro da vanguarda isolada. PSOL e PSTU são partidos criados de cima pra baixo, sem uma clara agitação popular e por isto seu discurso justo de ataque à política neoliberal não atinge as massas, prova disto é que vai ser muito difícil estes partidos sobreviverem as cláusulas de barreira. Alguns pregam a palavra de Marx sem levar em conta um de seus principais pontos: a prática é o critério da verdade. Se fosse pelo discurso tenho certeza que os candidatos do PSOL e PSTU estariam eleitos. No Rio Grande do Sul apenas a Luciana Genro(federal)foi eleita.

As mudanças não virão mais da disputa pelo poder,mas sim da mobilização social. O eleitor só vota quando associa determinado político a suas causas particulares.

No texto de LucianaVeiga ela cita Heller: “todo pensamento e toda ação se manifestam apenas em conseqüência de uma demanda do dia-a-dia”. È o chamado Economicismo.

Ela também coloca como uma das razões para o voto o que Bransford chamou de click de compreensão. A linguagem difícil dificulta a compreensão. A retórica tecnicista, ou melhor, o discurso complicado, dificulta o entendimento da população com menos acesso ao conhecimento. “O baixo conhecimento sobre os assuntos da política, quando não impossibilita a recepção de informações sobre o tema, torna a mesma muito custosa”(pg.185).

A escolha do voto é então decidida através do limitado conhecimento de política e a escolha parte através de razões subjetivas que levam muito mais em conta as características do candidato do que de um partido ou de um programa de governo. Soma-se a isto o fato de atualmente os partidos perderem credibilidade junto às massas. Não se sabe mais quem é de esquerda e quem é de direita. Num estado um partido se coliga com outro em que em outro estado são inimigos.Também porque nestas eleições o debate programático foi quase inexistente. Estamos indo pra um segundo turno e ninguém sabe realmente quais as propostas de Alckmin e Lula. Estes se colocam como adversários mas praticam o mesmo projeto neoliberal. Assim o eleitor decide votar no que mais lhe agrada. Naquele que resolverá seus problemas particulares. No mais “apresentável”. Neste texto de 1998 há depoimentos de pessoas que disseram que não votaram no Lula porque ele não sabia falar direito. Muitas vezes também o voto é em oposição. Fulano votou em Ciclano porque não queria votar no Beltrano.

Então tirada aquelas pessoas que tem acesso ao conhecimento e tirando também os militantes partidários, a grande massa vota por motivos pessoais.

È a Teoria dos Usos e Gratificações Pessoais. “De acordo com esta teoria, a mídia só se torna eficaz quando o próprio receptor lhe atribua tal eficácia, baseando-se precisamente na satisfação das necessidades” (pg188).

Neste sentido as propagandas eleitorais só influenciam o voto daqueles que não sabem em quem votar, o que infelizmente é a maioria dos casos. A pessoa só vai votar no candidato em função do horário eleitoral se tal propaganda reforçar uma visão já estruturada. Dificilmente uma pessoa irá desfazer seus pré-conceitos sobre algo em função da propaganda. Isto de constrói (ou destrói) a partir da intervenção direta no dia-a-dia.

È a Teoria de Assimilação e Contraste de Hovland. A mensagem é mais assimilada se concordar com nossas idéias pré-conceituadas. Ou então a Teoria de Recepção Seletiva que fala que o leitor decide seu voto pela coerência entre o que a propaganda diz e seus valores e atitudes pessoais. Portanto, aqueles que estão indecisos e como disse é uma grande parte, são bem mais influenciados diretamente pela propaganda política e podem sim mudar seu voto. No entanto ao escolher um candidato em função da imagem e não do objeto estão sujeitos a “errar” o seu voto. È a prática do vote no menos pior e facilita que os candidatos mais conhecidos, mesmo não tendo contato no dia-a-dia , possam utilizar-se da propaganda para ganhar votos dos indecisos e dos eleitores com menos acesso ao conhecimento para se elegeram com base em razões subjetivas.

Afinal de contas como é possível explicar que aqui no Sul o “cantor” Mano Changes(PP) e o homem do tempo Paulo Borges(PFL)- este último o deputado estadual mais votado, tenham sido eleitos com uma votação expressiva sem nunca terem participado de atividades políticas em nenhuma esfera?

Certamente porque eles cativaram um eleitorado que não vive a política no dia-a-dia, e sem ter uma fundamentação objetiva e lógica, para votar num candidato que vá resolver seus problemas imediatos, escolheram aqueles que lhe aparentaram melhor.

Então o que fica novamente de lição é que a esquerda precisa se reestruturar e não vai ser através de partidos políticos e sim da mobilização social para que consiga criar uma relação direta e participativa com o povo, caso contrário ficará sujeito à disputa propagandista no âmbito da subjetividade e assim apresentando uma linguagem muitas vezes complicada perderá para aqueles que são conhecidos da massa por outras atividades, como a música e a televisão.

p.s: eu ia usar como exemplo de “desconhecido político” o Clodovil (PTC) que ficou como terceiro deputado federal mais votado em São Paulo. Mas como usar isto como exemplo se o primeiro mais votado foi Paulo Maluf (PP)?
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