Segunda-feira, Novembro 27, 2006

Over 12- O Papai Noel dos Shoppings Tropicais

Per Fabricio Ungaretti Coutinho
Texto para edição 9(dezembro de 2006) da revista O Dilúvio (www.odiluvio.com.br)

O Papai Noel moderno atua como um símbolo decadente de nossas vidas artificiais. Moldado através do tempo, do ser humano ao boneco-propaganda, Noel é hoje o mais cruel retrato da era capitalista.

O Natal na era moderna assume o papel de “época de compras” ao invés do seu real significado como veremos. Não representa caso isolado, onde o econômico tenha se colocado acima da história. Outros feriados oficiais de nosso calendário brasileiro também são bastante utilizados para o mesmo fim, como a páscoa e o dia da padroeira do Brasil Nossa Senhora Aparecida, ambas datas cristãs. A primeira, também utiliza símbolos para vender, como o coelho e o ovo. Já a propaganda pro dia 12 de outubro foca ainda mais seu “público-ALVO”: o imaginário infantil. Outros tão desejados feriados têm origens antropológicas nas mais diversas formas de manifestação. Há datas “cívicas” como a Proclamação da República e Independência. Outras, conquistadas pelo povo como o dia do Trabalhador e o Carnaval. E Existe até dia para os mortos. No entanto, talvez o Natal seja o caso mais claro em que se nota a desconstrução de mitos e a criação de ritos. Estes interesses econômicos, propagandeados pela publicidade, através do estímulo ao consumo, desembocam no comércio e na maneira como as pessoas se manifestam nesta data. O Papai Noel dos shoppings tropicais, pingando suor em pleno verão brasileiro, aparece na televisão vendendo um descascador de uva, em doze vezes no cartão.

Na antiguidade os povos pagãos celtas comemoravam o solstício de inverno, ou seja, o momento que o sol se afasta o máximo em latitude da linha do equador, e penetra seus raios na terra de forma perpendicular, com a “Festa da Luz”. Monumentos de pedras serviam para marcar a data certa, o início do inverno no hemisfério norte. Este período é o que corresponde hoje, ao nosso atual calendário gregoriano, entre 17 e 25 de dezembro, variando conforme o ciclo solar. Em 274 d.c, o Imperador Aureliano estabelece o dia 25 de dezembro, como o Dia do Nascimento do Sol Inconquistável.


Pouco depois, com a consolidação da mais famosa “dissidência” do cristianismo, a Igreja Católica Apostólica Romana, provoca a primeira mudança na história. Em 325 d.c a Igreja Católica convoca o Concílio de Nicéia e edita que só valem os testamentos de João, Lucas, Marcos e Mateus, tornando todos outros relatos sobre Cristo, apócrifos. Participa deste Concílio o Bispo São Nicolau, que é o embrião do Papai Noel. Em 350 d.c, o Papa Júlio I, decreta que o dia 25 de dezembro seria também a data de comemoração ao nascimento de Jesus. Associou a celebração pagã ao sol com o surgimento daquele que era a luz, Jesus Cristo, embora, não se saiba ao certo nem ao menos o ano que Jesus nasceu. Pesquisadores chegam a afirmar que Jesus tenha nascido pelo menos 4 anos antes do que a história oficial conta.

A história avança e o protestantismo, dissidente do catolicismo romano, fundamental na aplicação do capitalismo, introduz o Papai Noel no Natal. Foram as igrejas luteranas alemãs que criaram o conceito de troca de presentes em comemoração aquele que vinha ajudar os necessitados: São Nicolau.

Nicolau Taumaturgo nasce século III, na cidade de Mira, província de Lícia, na planície de Anatólia no sudoeste da costa da Ásia Menor. A história conta que muito jovem Nicolau perde os pais e recebe uma grande fortuna de herança. Nicolau então vira sacerdote e passa a distribuir secretamente todo seu dinheiro para os necessitados. O mito é de que certa vez um comerciante falido, na cidade de Patara, fez de seu antigo estabelecimento um bordel e de suas três filhas- prostitutas. Dizem então que Nicolau ao querer livrar as moças de um pecado grave teria jogado um saco de moedas para dentro da casa, agindo secretamente sem que o comerciante soubesse quem havia doado a quantidade necessária para quitar suas dívidas e tirar as jovens do caminho do pecado, de acordo com a tradição cristã. Como o dia de São Nicolau é comemorado em 6 de dezembro e naquela época as pessoas comemoravam o Natal por vários dias, associou-se ao dia 25 de dezembro, o mito do mito: Papai Noel. Nicolau de sacerdote à bispo, de santo à Papai Noel- aquele que vem presentear escondido na noite. Sua popularidade chega até os Países Baixos e o norte da Europa através dos marinheiros que se achavam protegidos das tempestades pelo Santo.

A já lenda atravessa continentes e nos Estados Unidos vira Santa Claus ou Father Chirstmas. Em 1822, na colônia holandesa de New Amsterdam, hoje Nova York, Clement Clark Moore, no poema “Twas the night before Christmans or a Visit from St.Nicholas- A noite antes do Natal ou a Visita de São Nicolau”, descreve-o como um velhinho de barbas brancas e bochechas rosadas em um trenó puxado por oito renas, costume na Escandinávia.

A partir daí, os Estados Unidos, maior potência capitalista de nossa era, propaga a versão moderna. Thomas Nast retrata pela primeira vez Papai Noel, com a publicação de um desenho encartado na revista “Harper´s Weekly” em 1866. Outros elementos aparecem como a cor vermelha, o cachimbo e as ervas na cabeça.

Em 1931 retiram-se os mais prazerosos elementos e o velho começa a consumir drogas: coca-cola. A mega empresa estadunidense Coca Cola Company contrata Haddon Sundblom para fazer as campanhas publicitárias de Natal. A multinacional difunde a nova imagem (quase cópia da anterior) para todos cantos do mundo até 1966, quando Sundblom deixa de fazer as bem sucedidas peças/ pinturas a óleo. No entanto, já era tarde demais. A imagem do Papai Noel estava diretamente associada à Coca-Cola, ao Natal e ao consumismo.

No Brasil, a comemoração do Natal sempre esteve relacionada à tradição cristã, já que foi explorado por Portugal, um país católico. Assim a data em relação à religião, ao invés do louvor ao deus sol, estabeleceu a relação das pessoas, com a inclusão de novas práticas ao decorrer do tempo como a troca de presentes, os pinheiros, os presépios, as meias na janela esperando moedas e o panetone. Ou seja, a prática natalina sempre foi universal. Isto produz algumas esquisitices como um Papai Noel com muita roupa num Brasil quente e tropical.

De uma maneira geral, a universalidade da data, num mundo moderno, capitalista, fixou o sentido do Natal no ato globalizante do consumo, onde o Papai Noel é o principal “garoto-propaganda”. A propaganda utiliza um mito para criar novos ritos, no caso, o ritual da compra. Marcas importadas, produtos fetichizados, falsas promoções, necessidades criadas. Tudo em nome de uma comemoração que na verdade começou com o simples ato de olhar o sol.

Para entender a sociedade é preciso que olhemos pra nós mesmos, para nossas práticas. Começa por analisar o passado, para entender o presente e tentar mudar o futuro. Começamos esquecendo o sentido pagão da celebração, perdendo o contato com a essência, a natureza. Depois jogamos fora as idéias de humildade e ajuda aos mais necessitados que pregaram Cristo e São Nicolau. Por último estamos substituindo o ato de reunir amigos e familiares para comer, beber, dançar e conversar, por atitudes mecânicas e interesseiras como comprar. Evidente que existem as boas exceções e espera-se que no presente e futuro, predomine o sentido da reunião, da festa, indiferentemente de presentes, seja pra celebrar Cristo,o sol ou a cerveja, afinal é verão!


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